Folha curta, técnico experiente e sem luxo: a fórmula do Afogados, semifinalista do Pernambucano

 Momentos antes de viajar para o Recife, onde enfrenta o Náutico, quarta-feira, pela semifinal do Campeonato Pernambucano (transmissão Premiere), era difícil esconder a ansiedade. Alojados em uma pousada próximo ao centro da cidade de Afogados da Ingazeira, sertão do Pajeú, os atletas da equipe que carrega o nome da cidade têm a certeza de que o clube, fundado há cinco anos, está a dois passos de conquistar um feito inédito para equipes do interior: em 104 anos de competição nunca um time fora da capital Recife levantou a taça.

O lugar é humilde, não há luxo, mas traz a paz necessária para que o técnico Pedro Manta possa tirar o máximo de um grupo montado sem muito investimento. A folha dos atletas gira em torno de R$ 50 mil - colocando a comissão técnica, vai para R$ 70 mil, e somando todo o custo de hospedagem e viagem, a Coruja sertaneja gasta R$ 85 mil mensais. Valor quase quatro vezes inferior ao do Santa Cruz, que fora eliminado pelos sertanejos nas quartas de final.

O anseio do jogador mostra qual fora a aposta do Afogados para a temporada. Sem dinheiro, o clube apostou em atletas da região ou sem muito espaço no futebol. É o caso dele, responsável por defender duas penalidades na disputa contra o Santa Cruz. Walleg chegou ainda em 2018, vindo do Bangu FC, time amador de Afogados da Ingazeira.
 Andando pelos corredores da pousada, Manta mostra porque tem o grupo na mão. Brinca com Wallef, puxa assunto com o volante Douglas Bomba, conta história de quase todos os atletas. É próximo. Sem muito alarde, consegue passar o que espera de cada um na próxima partida. Experiência de quem, com exceção do Central-PE, trabalhou em todos os clubes de Pernambuco. Incluindo a base de Náutico, Sport e Santa.

- O treinador nos ajuda muito. Tem sempre uma conversa, coloca a gente para cima e nos incentiva - diz Douglas Bomba, que não escapou da bronca por ter perdido um pênalti contra o Santa Cruz.
 A ansiedade em enfrentar o Náutico, contudo, não significa que o Afogados chega ao Recife tenso. Muito pelo contrário. No ônibus que partiu às 18h da última segunda-feira, o clima era de certeza de dever cumprido. As metas estabelecidas de seguir na Série A1 do Estado, conseguir uma vaga na Série D e classificar para as quartas de final foram todas alcançadas. O que está longe de representar comodismo.

- A gente não esperava ir tão longe, até pelo investimento, mas deixaram chegar... Conseguimos e agora vamos jogar futebol. A obrigação não é nossa. A gente vai jogar nosso futebol, com a certeza de que somos capazes e que podemos fazer um grande jogo. Dentro de campo o que decide é o futebol e a gente vai comendo essa papa pelas beiradas. Seria um feito enorme chegar até a final - disse Manta.

Estádio com tecnologia avançada
Sem muito dinheiro para investir no futebol e em melhorias estruturais, o Afogados decidiu aderir a um método inovador para manter o estádio Vianão em boas condições. Com o sertão castigado pela seca, algo corriqueiro na vida de quem mora na região, coube ao clube fechar uma parceria com a prefeitura local, que investiu cerca de R$ 70 mil em um sistema de irrigação.

A ideia era fazer com que a grama não secasse e, com isso, prejudicasse a prática do esporte. Para isso, químicos e engenheiros ambientais desenvolveram um sistema que mistura água de reuso, rumem de boi e casca de laranja. O resultado gera o que é chamado de bio-geo, usado para irrigar a grama do local onde o Afogados ganhou sete dos 12 pontos conquistados na primeira fase.
 Estratégia afiada dentro de campo
Com estratégia definida fora das quatro linhas, coube ao técnico Pedro Manta trabalhar a equipe para que o Afogados pudesse surpreender os adversários mais tradicionais. Contra o Santa Cruz, investiu no contra-ataque e adiantou a marcação para apostar na velocidade dos seus atacantes. Funcionou. Diante do Náutico, sem a pressão pela vitória, a ideia é gastar o tempo e apostar na impaciência da torcida local.

Manta sabe que se recuar as chances de perder aumentam muito. Quer Diego Ceará, artilheiro da equipe com cinco gols, recebendo oportunidades de marcar. A intenção é mostrar que o jogo não será fácil desde o primeiro minuto.

- A estratégia é jogar bola. Vamos tocar a bola, gastar o tempo e ver o que acontece. Sabemos que quando bate uns 20 minutos começa a gerar ansiedade. A gente não precisa se lançar para o ataque, mas não vamos nos privar de jogar. Vamos atacar. Quero meu time tendo chances e sem medo. A pressão não é nossa, pois sabemos que o Náutico tem um time veloz, qualificado e joga em casa. Eles têm a faca e o queijo na mão, mas podemos surpreender.

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