Índias Pankararu quebram tradição e transformam aldeia com prática do futebol

 Os pés descalços dançam pelo terreiro. O restante do corpo, coberto por uma roupa de palha. A identidade de quem veste é segredo absoluto. Esse é o ritual sagrado dos índios Pankararu. A Dança dos Praiás é um pedido de proteção e uma forma de agradecimento. Somente os homens podem participar. Mas nessa aldeia, em Jatobá, no Sertão do São Francisco - a 460 km do Recife -, uma tradição foi quebrada pelas mulheres. O futebol, ali, não é mais só dos homens.

- Desde crianças elas já começam a andar já com a bola debaixo do braço. O futebol aqui é muito forte - afirma Maria José da Silva, mais conhecida como Mazé, índia que na infância foi uma das primeiras a jogar na aldeia.

Mazé conta que o pai queria um filho homem para jogar futebol. O garoto não veio. Nasceram seis indiazinhas. Quando cresceram um pouco, o pai não se frustrou. A programação com elas agradou em cheio
 O pai de Mazé não imaginava que mudaria para sempre a vida na aldeia. As amigas dela também começaram a gostar de bater bola. Hoje, grande parte das índias Pankararu joga futebol no poeirão, campo de terra batida que existe em toda aldeia do Sertão do São Francisco, em Pernambuco.

Há dias reservados para o futebol dos homens e os dias para as mulheres. E tem os jogos em que eles se enfrentam. Segundo o cacique, Flávio Monteiro, ele foi apostar com as mulheres e saiu perdendo. O time das índias ganhou. O cacique se rendeu ao talento do futebol feminino e, vez por outra, chega junto para ver as mulheres jogando.

Elas, no entanto, não ficaram satisfeitas com o futebol no poeirão. Mazé, diretora da escola indígena, montou um time de futsal feminino. As alunas sonham com uma vaga na equipe. No comando está Antônio Carlos, índio formado em educação física. Um trabalho desafiador para ele.
 Na escola não há quadra. As jogadoras têm uma opção que fica um pouco afastada. Uma outra quadra, descoberta, com piso danificado. Quando chove, fica muito alagada e escorregadia. Quando faz sol, as placas de cimento ficam quentes demais. Impossível jogar para as muitas meninas que treinam descalças. Ou seja, treinam quando dá.

A alternativa é treinar três vezes por semana à noite, em uma quadra que fica a 3 km da escola. As índias caminham por meia hora na escuridão.
 Apesar de todas as dificuldades, o time de futsal feminino surpreendeu nos Jogos Escolares de Pernambuco. As equipes mirim e infantil venceram times do município de Jatobá, onde fica a aldeia, e foram para capital Recife disputar a fase final das olimpíadas. Emoção do primeiro ao último confronto.

As Pankararu perderam na decisão. Mas não há derrota que desmereça a luta dessas índias apaixonadas por futebol.

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