De goleiro reserva a radialista: carioca faz tudo para estar ao lado do Afogados

Domingo, 20 de julho de 2014. Das arquibancadas do Mendonção, em Belo Jardim, Agreste pernambucano, Rogério Pacífico acompanhou a estreia do time de coração em campeonatos oficiais. Natural de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, aos 32 anos, ele encontrou em Afogados da Ingazeira, Sertão do Pajeu, a paixão pelo futebol. Movido pela admiração arrebatadora, transformou-se no mais assíduo torcedor do clube, que carrega o nome da cidade sertaneja. Cinco anos depois, mesmo período de existência da equipe profissional, prepara-se para participar de mais uma empreitada inédita: a disputa da semifinal do Pernambucano.
Comerciante, com tempo dividido entre Afogados da Ingazeira - a 379 km do Recife - e João Pessoa, onde tem negócios, Rogério chegou ao Sertão após a mulher passar em um concurso público, há nove anos. Desde os primeiros passos do clube, não mede esforços. Pela devoção, acumula histórias inusitadas. Em uma delas, foi convocado por uma rádio para ser o comentarista da partida entre Afogados e Altinho, pela Série A2 do Estadual, em Belo Jardim.
 - Estava indo para o primeiro jogo do time, em Belo Jardim. Fui para torcer e nunca nem sequer pensei em trabalhar na rádio. Aí recebo uma ligação para ser o comentarista do jogo pela Rádio Pajeú. Olhe, a perna tremeu toda, mas fui fazer. No final foi bom. A gente ganhou por 2 a 0.
Natural do Rio de Janeiro, Rogério conta a desaprovação do pai, seu Severino Guimarães, que tentou, sem sucesso, fazer o filho virar Fluminense - a preferência foi pelo Tricolor sertanejo. E, para acompanhar a Coruja de perto, chegou a mentir a identidade, em 2016. Enlouquecido, após ver o Afogados subir para Série A1 do Estadual, dirigiu-se ao campo da partida, onde os atletas festejavam. Barrado pela segurança, não teve dúvidas. Disse ser o terceiro goleiro e teve acesso ao gramado. Tudo certo para ele, tudo errado para o atleta de verdade Jeferson Danilo, de 16 anos, que foi barrado ao tentar chegar até os companheiros.
- Rapaz, eu queria ir para festa no campo. Aí joguei essa de ser terceiro goleiro. Entrei, coloquei a cabeça da Coruja, nosso mascote, dei cambalhota... um sonho. Mas fiquei triste pelo Danilo, ele tinha só 16 anos. Aí tentou entrar depois de mim, e o segurança do estádio disse que o terceiro goleiro já estava dentro de campo. O coitado foi para arquibancada e ficou chorando. Mas para mim foi sensacional.
Presidente da torcida do clube, Rogério se vangloria de segui-lo em quase todos os jogos. Seja onde for, independente do dia, ele vai. Na maioria das vezes sozinho, o que lhe garante “tratamento vip” na maioria das partidas. Foi assim em Caruaru, durante o Estadual, quando policiais o escoltaram durante o jogo.
- Em Caruaru foi engraçado. Eu estava só, aí a polícia chegou para fazer a proteção da torcida visitante. Mas só tinha eu e ficou parecendo escolta. Aí disse que eles podiam ficar tranquilos que eu ficava sem proteção. Na maioria das vezes, eu estou só. Vou em todos os jogos e isso de ficar só é normal.
Nas vezes em que consegue a companhia do restante da torcida, Rogério se orgulha pelo fato do clima familiar dos tricolores. Na organizada estão a filha do roupeiro, de apenas quatro anos, o fotógrafo da equipe, além do mecânico, responsável por salvar o time durante uma viagem de Timbaúba até Afogados da Ingazeira, quando o ônibus do time quebrou na estrada.
- Em 2016 salvamos o time. A gente tinha vencido o Timbaúba, por 4 a 0, aí, quando a gente vê, o ônibus do time quebrado, no meio da noite, na estrada. Mas tínhamos um mecânico na torcida e ele tava no ônibus. Desceu, fez o reparo e os dois ônibus chegaram juntos em Afogados. Olhe, o povo todo preocupado, porque não tinham notícia da gente, mas quando a gente chegou foi muita brincadeira com isso. Eu digo que a gente é mais que um clube, é uma família.
Prestes a enfrentar 379 km de Afogados da Ingazeira até o Recife, onde o time de coração encara o Náutico, pela semifinal do Estadual, Rogério acredita no poder de superação da equipe. Espera uma surpreendente vitória do clube com cinco anos de fundação, feito tão surpreende quanto alguém sair de Duque de Caxias para virar principal torcedor de um clube do sertão pernambucano.


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