Afogados: Volante supera prisão e morte dos pais, e ressurge no futebol

 O cheiro forte de chulé toma conta do corredor estreito e escuro que dá acesso ao terceiro cômodo, com um número 11 na porta. Do lado de dentro, duas camas e um ventilador compõem o cenário de um alojamento com oito metros quadrados. Deitado, com cabeça em um travesseiro um tanto quanto amarelado, Douglas Francisco Lima de Souza, 26 anos, vê o pensamento retornar para o dia 18 de julho de 2018, quando dona Maria José, sua mãe, morreu. A dor da perda o persegue. Não apenas pela saudade, mas pela angustia de não ter conseguido mostrar para ela, que o filho, preso em meados de 2011, por assalto, conseguiu retomar a carreira como jogador de futebol.

O quarto do hotel que serve como alojamento para o Afogados, clube do sertão pernambucano, não tem luxo. As dimensões se assemelham com a cela do presídio de segurança máxima Aníbal Bruno, no Recife, onde o volante morou por dois anos e quatro meses. Mas existem diferenças significativas.
 Na cama, Douglas sabe que o sentimento de tristeza e preocupação que invadiram sua mãe após ele ser dispensado do Santa Cruz - por mau comportamento e pela prisão, aos 18 anos - dariam lugar a orgulho pela remissão conquistada. Pensar nisso minimiza a culpa que o sufoca desde 2015, quando o pai, José Paulo, fora assassinado após ser confundido com ele, que era perseguido. E também a suportar a lembrança do falecimento de dona Maria José. Momentos contados com a resignação de quem tem que aceitar o passado e seguir em frente.

- Vi muitas coisas dentro da cadeia. Vi gente tendo garganta cortada, dedo arrancado, bochecha rasgada... Mas a coisa que mais me marca é minha mãe ter que ficar nua todas as vezes que ia me visitar. Ela passar por essa humilhação por minha causa, sabe?! Eu tinha falado para minha mãe: "Mainha, a senhora já cuidou tanto de mim, meu amor, agora é minha hora de cuidar da senhora". Tinha falado para mim mesmo: "Jesus, eu vou parar de jogar bola, vou arrumar um trabalho e vou cuidar da minha mãe. Chegou a hora de cuidar dela. Ela já sofreu muito por mim". Quando foi no outro dia minha mãe faleceu. Teve um infarto de manhã, aí só Deus sabe...
 Longe dos olhos da mãe, sem os cuidados do pai e precisando tomar conta do irmão, Diego Felipe, que fora preso com ele, por ser cúmplice no assalto a policiais, Douglas teve que crescer. Primeiro fisicamente, ainda dentro da prisão. Sem qualquer lazer, dedicou-se aos exercícios físicos. Ganhou músculos. Ganhou respeito.

O medo que sentira ao ser colocado diante de situações limites se assemelha ao momento em que viu o portão do Aníbal Bruno se abrir, após cumprir 1/6 da pena total de dez anos, e perguntar-se, sem resposta imediata: para onde ir? Quem o daria emprego? Como retomar a vida? Desespero que faz 24,4% dos ex-presidiários voltarem ao mundo do crime, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Órfão e desempregado. A vida fora da cadeia parecia não ter solução. As respostas vieram através de uma ligação recebida. Do outro lado da linha, um ex-companheiro da base do Santa Cruz, Renatinho.

- Estava sem rumo. Ninguém quer dar emprego para presidiário, até porque você fica com nome sujo por cinco anos. Sem emprego, sem ter muito o que fazer, a gente fica meio desesperado. Aí Renatinho me ligou, perguntou se eu queria retomar minha carreira. Pedi por tudo que ele me ajudasse, aí ele e o pai dele arrumaram uma vaga no Serrano, time de Serra Talhada (sertão de Pernambuco). Me apresentaram ao Pedro Manta (técnico) e eu recomecei. Era a minha chance e eu agarrei.
 No corredor do hotel, concentrado com o time do Afogados, Douglas avista Pedro Manta chegando. "Esse aí foi um dos que me salvaram". O conforto que falta às instalações sobra ao sentimento de paz por se sentir aceito. Sem camisa, caminhando ao lado do goleiro Wallef, o volante ouve brincadeiras dos amigos, é chamado pelo assessor de imprensa para contar um pouco mais da história de vida e, de longe, é observado pelo treinador, que tenta trazer um pouco de calma para a cabeça do jovem, em quem vê um talento a ser explorado.
 A lembrança da mãe, a tristeza por saber que o pai fora morto em seu lugar e o arrependimento por ter entrado no mundo do crime seguem rondando a cabeça de Douglas. Uma recordação mais recente, no entanto, o enche de esperança. O dia 17 março, quando marcou o gol que garantiu o Afogados na Série D do Campeonato Brasileiro, após empatar em 2 a 2 com o Vitória-PE, na Arena de Pernambuco, poderia ser algo simples para qualquer um dos atletas envolvidos na partida. Menos para Douglas. Ao ver a bola entrando na rede, a felicidade de Pedro Manta - quem estendeu-lhe a mão - e os olhares de aprovação de quem o cercava, ele teve a certeza de que pode, sim, redescobrir a vontade de ser feliz.

- Ainda vai demorar muito, mas vou reconstruir a minha vida. Aos poucos, vou dar orgulho para minha esposa, meu filho e minha família. A caminhada é difícil, mas eu vou lutar por isso.

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