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História: A derrubada da igreja velha de Princesa Isabel

A primeira a cair foi a torre que segurava os três sinos. Caiu depois de três dias resistindo aos cabos de aço e ao trator da Prefeitura. O estrondo da queda calou a multidão postada ao redor da igreja desde quando Frei Anastácio bateu o martelo e, em conluio com o prefeito Gonzaga Bento, autorizou a derrubada.
A velha igreja deu trabalho. Embora antiga, construída em 1776, tinha paredes firmes, de quase um metro de largura, que não caíam fácil. Foi preciso o trator da Prefeitura, os cabos de aço e a marreta de Luiz Nogueira a castigar os pedaços enormes que despencavam do alto.
A queda da torre anunciava a vitória de Frei Anastácio sobre a resistência do deputado Antonio Nominando Diniz, declaradamente contra a demolição do templo.
O deputado pedira a Deus e ao mundo que a igreja fosse preservada, mas ele estava em minoria. O governador Ernani Sátyro era aliado do seu principal adversário em Princesa, Aloysio Pereira, que estava ao lado do padre. O governador já havia demolido o prédio de A União, quase tão antigo quanto o da Igreja de Nossa Senhora do Bom Conselho, de modo que autorizar a demolição de outro prédio era apenas uma questão formal. Principalmente se o defensor da demolição fosse, como de fato era, um aliado político.
Ele mandara demolir o histórico prédio do jornal para não desgostar um deputado amigo que comprara o Hotel Aurora, local onde originariamente seria construído o prédio da Assembléia e que ameaçara romper caso o seu hotel fosse abaixo. Ernani achou mais conveniente derrubar o prédio de A União.
E quem derruba um, derruba dois.
Foi assim que a velha Igreja foi abaixo. Pedaço por pedaço, pedra por pedra, tijolo por tijolo.
Frei Anastácio comandava pessoalmente os trabalhos. João de Água Branca dirigia o trator, que no esforço de derrubar as paredes, levantava a dianteira e causava furor na multidão. O povo se postava nos arredores, pela calçada do casarão dos Maia, pela frente da farmácia de Zé Frazão, pela frente da bodega de Mirô Arruda, pelo pátio das lojas de Severino Almeida, de Parajara Duarte, dos Maia de Hermes e de seu Belo.

Uns festejavam, outros se assombravam, alguns choravam escondido para não desgostar o padre Anastácio, que tinha cara de índio e jeito de gente bruta.
A ordem era tirar a igreja velha e construir uma outra em forma de caixão.
João Mandu dizia na difusora do Padre que a nova igreja era melhor do que a velha. Teria bancos confortáveis e azulejos nas paredes, coisa chique, com cara de céu.

E os grandes proprietários de terras se faziam doadores. Quem doasse mais, chegava ao céu primeiro quando morresse, além de ter seu nome anunciado na difusora e nas missas dominicais.
Enquanto isso, a igreja caía. Cada pedaço que chegava ao chão era desmanchado pelas marretadas de Luis Nogueira, um bicho bruto de força descomunal, que se orgulhava dos músculos e da brutalidade de suas marretadas.
O Padre Anastácio festejava, o prefeito idem. E a igreja velha sumia, sob os protestos de uns poucos que falavam em preservação do patrimônio histórico, palavras estranhas para aquele povo acostumado a acreditar nos bem ditos dos padres e nos castigos que eles anunciavam para quem se atrevesse a desobedece-los.
Por Tiião Lucena

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